Sobre ser mulher e criar pessoas de bem (1)

O assunto não tem fim. Mas tem uma finalidade: ampliar o entendimento sobre o gênero, o respeito humano e o que realmente importa na vida.

Como já falei, sou tida como contadora de histórias… E hoje no trabalho o tema do café foi: os cânceres sociais (a propósito dos atentados promovidos em escolas nos últimos dias), a importância de estar próximo e conversar com nossos filhos e as diferenças entre as vivências da nossa geração (por volta dos 40) e dos nossos filhos.

Vou escolher começar pelas minhas histórias. Que não necessariamente são minhas.

“Desculpa, ele estava bêbado”

Talvez 13 anos. Mas já com corpo de mulher. A casa era da irmã mais velha, do primeiro casamento do pai. A irmã era casada, com o segundo marido. Tinha duas filhas do primeiro casamento, de 12 e 10 anos. O marido parecia gente boa. Assim como o irmão dele e sua esposa, que estavam hospedados com sua irmã. Naquele dia, o programa tinha sido no Jóquei Clube da cidade do interior onde a irmã morava. Teve jogo do Brasil, música, brincadeiras e, pros adultos, provavelmente bastante cerveja. Ela não observava muito isso. Ainda.

A chegada em casa foi aquele alvoroço. Crianças tinham que tomar banho, todos já de barriga cheia. Eram três quartos. Um para cada casal e o terceiro pras três meninas (ela e as sobrinhas).

Banho tomado, dentes escovados, morta de sono. Veste um blusão e vai à cozinha pegar água. Na volta, no meio da sala, encontra o irmão do cunhado. “Boa noite”. Uma mão do cara tampa a sua boca enquanto a outra a suspende pela cintura e encosta na parede. A espreme na parede. A esfrega. Sem chance de reação: não tinha força e tudo foi muito rápido. Nem pensou em correr ou gritar.

Aparece um dos outros três adultos. Quem foi mesmo? A irmã? O cunhado? A esposa? Sabe-se lá. Não importa. Foi o bastante pra brecar aquilo que estava acontecendo. E observar-se o movimento patético do animal indo pro quarto.

Minutos depois, no quarto das três meninas, ela vê diante de si o irmão do cunhado (o tosco, o tarado, o estuprador), acompanhado da esposa de ar aborrecido e enfadado, simulando suposta empatia. “Desculpa o que aconteceu, ele estava bêbado. E quando está assim não sabe o que faz”. Beijinho e boa noite.

O dia amanhece. Sol lindo. U-hu. A piscina convida. E os convidados comparecem. Todos, menos ela. Ela ficou trancada o dia inteiro no quarto. Constrangida e com ódio. A irmã pediu apenas: “não comenta com o papai, ele não entenderia”. Mas foi só isso. Porque o dia tinha amanhecido. E o sol estava lindo. U-hu.

***

Os anos passam e as experiências são tantas. Tantas que nem vale a pena contar. Não de uma vez. Muito pesado. Arq… E ela se torna mãe de uma menina. E de repente tem 40, e a filha 13. Caramba. A idade que ela tinha, no repugnante episódio do co-cunhado tarado.

Conversa, amizade, esclarecimento, olho no olho, atenção aos detalhes, respeito ao sagrado espaço feminino. Aos 13 anos, sua filha é completamente diferente da garota que ela era com a mesma idade. Mas ganhou da mãe o bônus da experiência compartilhada. Desde muito pequena sabe que poucas pessoas podem tocá-la. Apenas as autorizadas e escolhidas.

Sabe que ninguém pode desrespeitá-la. E nem ela a ninguém. Sabe que ser mulher traz suas dores e suas delícias. E sabe que pode. Apenas pode. Tudo. Desde de queira. A filha sabe de tudo isso.

Mas o que a mãe quer mesmo, é que ela nunca precise ser posta a prova. Porque o que ela deseja mesmo é que a filha autorize, escolha, possa. Desde que queira. Contanto que seja e faça feliz.

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